É assim que imagino, então sei que a neve é alvíssima e o meu céu de dia frio é de um tom cor de neve. Aqui é um lugar tropical, então não há neve, mas chove bastante em meses frios e a chuva deixa tudo reluzindo com a luz do sol que vem de trás das nuvens... telhados alaranjados tem um aspecto molhado e refletem os raios solares, o asfalto em um pedaço da rua e os paralelepípedos em outro pedaço ficam molhados e de um tom um pouco mais escuro.Do meu quarto, enrolada em um lençol quentinho e carmesim, vejo os pingos de chuva precipitando-se e ouço o canto dos colibris que vem tomar néctar (preparado por mim mesma) na minha varanda; ao ouvi-los viro-me lentamente para não assustá-los, e olho pela minha janela e os vejo voando e brincando no ar. Com aquelas asas velozes não pousam um segundo sequer, ficam parados no mesmo lugar em pleno voo e, de quando em quando, descansam pousados no lugar onde fica o néctar e bebericam ali; e tão logo já sumiram de vista e estão do outro lado da rua, pousados nos fios de eletricidade.
Nesses momentos, em que paro para admirar os colibris, distraio-me de Angústia e deleito-me com a beleza deles; mas tão logo a ânsia de saber de seu Luís da Silva volta e eu recomeço a devorar o livro que estava em meu colo. Da-me uma coisa, não sei descrever, mas sei que é boa a coisa. É como uma euforia quando ouço o poeta falar na Rua do Sol, Rua do Comércio, Martírios e quando citou o nome da minha cidade eu li pausadamente "Maceió" e me deu um orgulho... Graciliano, o grande Graciliano Ramos, escreveu uma história que se passa em minha cidade!
E aquela euforia dentro de mim ao ler cada palavra que o Grande escreveu em minha cidade se remexia e escapava na forma de riso e sorrisos e ao falar aquelas expressões tão nordestinas voltava a euforia e eu ria! Caldo de cana com pastel, e não é que os maceioenses param para lanchar isso até hoje!
É uma leitura gostosa! E se fosse por mim iria ler pedaços que gostei para alguém que gosto e acabaria lendo o livro inteiro pois de tão bom gostei de todas as partes que li até agora.
Esse dia frio, no meu cantinho do aconchego é um ótimo lugar para ler um livro.É um ótimo também para tirar um cochilo... E um dia melhor ainda para ficar agarradinha com quem se ama.
Só há um porém no entanto, o meu amor não está aqui. Estou com o pensamento nele, desejando seu corpo quente abraçando-me, ouvir aquela voz chamando-me carinhosamente para mais perto dele, aquelas arengas bobas tipicas de quem ama; mas ele está longe, está trabalhando, e com certeza está com o pensamento longe, bem distante de mim, com tantas coisas para fazer no trabalho. Será que pensa em mim enquanto está amontoado de coisas a fazer?
Não sei e nem vou saber, pois não há nessa terra quem leia pensamentos. E pensando assim, continuo lá à imaginá-lo, e me imaginar com ele, e imaginar nós, e imaginar o nosso futuro... E ai então, depois de tanto devanear, volto para minha leitura, já que hoje é um dia bom para ler um livro e o meu amor não está comigo, está é longe, talvez até nem pensando em mim.
E continuo a ler, deleitando-me com aquela gostosa leitura e aquela euforia ao ler o poeta escrever sobre costumes e lugares que conheço tão bem. Estava rindo com o livro, quando as letras foram embaçando e o sono pegou-me e levou-me para um sonho bom com o meu amor pertinho; um cochilo no meio da tarde, agarrada com o livro e enroladinha no lençol carmesim.