domingo, 28 de dezembro de 2014

Amargas fraternidades

As pessoas esticavam seus braços a fim de sinalizar para os ônibus pararem no ponto, corriam quando os mesmos paravam distante de onde estavam e enquanto esperavam, conversavam despreocupadamente. E foi ali mesmo, naquele ponto de ônibus, que avistei de longe suas particularidades, afinal tantos anos de convivência levam-nos a aprender todos os mínimos detalhes dos trejeitos de nossos queridos.
Percebi seu rebolado, o remexido particular em suas madeixas negras enquanto anda e até o jeito como procura por algo na bolsa em que carrega. A medida que a distancia diminuía foi possível observar o seu sinal na bochecha, as leves ondulações em seus cabelos, o óculos de armação fina que ela sempre achou muito sexy. Tudo era familiar, era como olhar a mim mesma tal era meu conhecimento de cada minúcia da garota.
O contato físico real foi bem pequeno: passou por mim, sorriu um riso torto e falou baixinho um "Oi" sem muito sentimentalismo. Ela se foi mas eu fiquei naquele ponto, na mesma avenida em que ela sempre morou, a lembrar de um passado nem tão distante.
Finalmente sentia que a tristeza amarga e opressora que guardei por anos estava se esvaindo.Tal tristeza manteve-se por tanto tempo pois ela e as amarguras que rendeu a mim foi um dos moldes para minha personalidade, um dos principais escultores do meu caráter e metal para a minha armadura.
A história iniciada nos anos primários de minha educação, onde a timidez inibia qualquer tipo de relacionamento afetivo com os coleguinhas da turma, ela mostrou-se como um anjo. Salvou-me da solidão nos intervalos recreativos entre as aulas, das maldades pronunciadas pelos coleguinhas da turma, das brincadeiras isoladas com as canetas hidrocor. Ela foi o meu primeiro amigo, minha primeira amizade. Mas os anos que seguiram-se imprimiram em nossa história um amargo indescritível, cuja mínima tentativa de narração são dignas de um longo romance.
É bastante saber que a amargura que passou a dominar a relação levaram-nos a distanciar-nos tanto que reconhecemo-nos como a nós mesmas na frente de um espelho, mas não prestamo-nos a ter um diminuto diálogo.
Entretanto aquele pequeno encontro foi o ponto final na nossa história. Por fim, o fim.