sábado, 29 de setembro de 2012

Meninices

Por trás dessa cara durona, existe um sorriso e um brilho no olhar esperando que alguém venha e lhes tire do casulo.
Estou querendo sorrir.
E rir; gargalhar bem alto, e depois ri da minha risada estranha. Correr, sentindo o vento. Abraçar forte. Ficar rodando na areia, até ficar tonta, e ai andar para frente sentindo aquele 'perigo' de cair na areia. Cantar desafinado, junto com mais alguém também cantando desafinado. Deitar na água, senti-la como um colchão, cujo teto que o protege da chuva é o mesmo que a deixa passar. Eu estou querendo fazer todas aquelas meninices - mesmo as que não foram citadas -, aqueles que fazem os meninos que não estão nem ai para a seriedade das coisas. Quero brincadeirinhas de crianças para cessar por um instante com essa coisa de ficar séria, de tudo ser sério, das conversas só serem conversas séria sobre futuros e profissões... quero as conversas sobre o agora, sobre o próximo lugar a visitar, sobre... sobre o que vier à cabeça.
O que eu quero é me sentir feliz. Sentir viva.

Snoop



domingo, 23 de setembro de 2012

Vamos viver de brisa?

"Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua mãe, teu marido, teu amante.

Aqui faz muito calor.

Lá no nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa.
Vamos viver de brisa, Anarina."

Manuel Bandeira

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Se tem asas, é para voar.

E não para ficar preso em um mural ou gaiola. Vai você tentar domar um colibri, não vai conseguir. Tem que cuidá-lo bem e assim fazer com que volte por si mesmo, sem amarras, sem correntes e sem prisões, voltando porque quer estar com você. Com as borboletas se dá o mesmo, cuide do seu jardim e ela sempre irá retornar a ele, uma hora ou outra.


Amontoado pequeno

Certos dias, da minha janela, posso ver uma estrela. É algo estranho de se falar, no entanto essa é a minha estrela favorita. É a mais reluzente no céu noturno e a que chama minha atenção mais do que qualquer outra.
Por algum motivo que desconheço, é normal eu acordar diversas vezes durante a noite; é costume também levantar um pouco a cabeça, todas as vezes que acordo nas noites, só para ver se a minha estrela está lá. E na maior parte do tempo, está.
Essa minha estrela é de um tom dourado, e não sei se é por alguma anormalidade da minha visão ou se ela é mesmo assim, mas eu vejo ela sempre com oito pontas mas as vezes pulam mais algumas discretamente do centro para o exterior, aumentando o número de raios que saem da minha estrela.
E por mais que descreva a minha estrela, ninguém vai pensar ela como eu vejo. Ela é única para mim e ninguém pode vê-la como eu vejo, pois meus olhos só eu tenho.
Em geral eu escrevo muitas palavras que se amontoam e formam um texto grande... esse amontoado de letras deve despertar uma preguiça de ler em algumas pessoas - se é que alguém ainda passa por aqui, depois de tanto tempo acumulando teias, sem novas palavras, sem mais pensamentos soltos -, mas aqui está uma exceção a essa mania de escrever amontoados grandes de letras pequenas.
Paro por aqui, vou olhar minha estrela.

Pó de Lua: II Ato: Você vai, Eu Pulo.


Pó de Lua: II Ato: Você vai, Eu Pulo.


-Eu só vou se você for.
Disse o menininho com meias até o meio das canelas.
-Não, eu só vou se você for.
Disse a menininha de franja até o meio da testa.
Deram as mãos. Iam pular.
-Eu não quero mais ir.
Disse o menininho.
-Agora eu quero.
Disse ela.
-Vai.
-Eu só vou se você for.
-Por quê?
-Porque você disse que me amava.
-Disse. Mas eu não quero ir.
-Se você me amasse iria comigo.
Ficou decepcionada a menina. Ele morria de medo de altura, ficou desesperado. Agora ela duvidava.
Teve uma ideia. 
Soltou a mão dela, desceu do canteiro de areia pela escadinha e se deitou lá embaixo, de braços abertos.
-Pronto, pode pular em cima de mim!


Clarice Freire. 

Excentricidades de um Colibri

Cabeça caída para trás, turbilhões de pensamentos agitam essa mente viajante




terça-feira, 4 de setembro de 2012

Dogmas de um apaixonado...


Do teu riso,
o meu sorriso surgia.
Dos teus beijos,
minha respiração se fazia.
Do teu brilho,
minha luz necessita.
Na minha mente,
tua imagem domina.
No teu olhar,
vejo-me refletida.
Ao teu lado,
minha felicidade caminha.
Com você,
o sorriso recusa-se a ir.
Pra você apenas
só os mais belos sorrisos.
Pois foi a ti
que meu coração foi laçado
Coração, este, que nunca imaginou
ser despedaçado...
Se quiser, volte, pois
ainda há em mim os estilhaços
Que talvez possam ser novamente
juntados.
Por enquanto,
as lágrimas continuarão saindo de mim.
Enquanto eu espero fervorosamente
por ti.
Você não se recusará a vir
Sabendo que minha vida
depende eternamente de ti.


Sempre dou algumas risadas relendo esses textos antigos, escritos por um eu diferente do que sou hoje... ao menos nos aspectos gerais afinal essa Aline ainda está quietinha aqui no cantinho dela, dando-me algumas das características e manias que tenho.

A Primavera das Poesias

Ainda lembro-me quando tolamente respondia ao meu pai quando me vinha com um livro de poesias "Não gosto de poesias, não faz a gente sentir nada, não é como os livros." E disse tal frase, com algumas ramificações mas com o mesmo sentido diversas vezes e não abria a mente para saborear os versos.
Ele trouxe-me diversos poetas com diversas poesias mas a opinião do meu eu mais novo não mudava.
No dia que chegou com um livro da Primavera das Poesias - como me apresentou a fantástica Cecília Meireles - o meu ver dos versos mudaram completamente.
Então, todas as manhãs, sentávamos ao redor da nossa mesa de vidro, iluminada pelo sol delicado da manhã e liamos Cecília.
Cá estou para relembrar daquelas épocas pintadas de poemas e sol que também fazem lembrar as épocas douradas do NossoCaffeLatte, cuja postagem inaugural foi exatamente sobre poesias e Cecília, e o despertar do gosto pelos versos.
[...] "essa que por muito tempo me passou para trás, sempre me desinteressando no último momento, e minha ideia sobre ela é muito positiva, quando se lê a poesia simplesmente, ela não passa de palavras numa página, sem vida, sem emoção, sem nada, mas assim também seria se eu me pusesse a ler os grandes livros de romance sem me deixar levar pela história, imaginando o que eu vejo nas palavras.
No entanto, quando a poesia é lida como deve ser, dando-lhe ritmo como uma música, seja rimada ou não, deixando que ela mostre toda sua sentimental exuberância, característica essa que eu não usaria no dia a dia, mas que é a melhor para definir a poesia, que acima de tudo impõe emoção, ela se torna tão divertida e fluente quanto os melhores romances, levando em conta, é claro, que a poesia é algo muito mais livre e estreito. Não se deve ler um livro de poesia como outro qualquer, mas manter uma linha, seja reta ou não, escolhendo os poemas sobre os quais o assunto interessa e deixando que o poema se expresse, sem dar uma conotação de um capítulo de um livro, mas de um livro dentro de outro.
Quanto a Cecília Meireles, não posso recitar uma lista de características sobre ela, mas posso dizer que todos os poemas que li, gostei" [...]
Sam Cromwell para NossoCaffeLatte

Não vou escrever muito palavras minhas, só quero pintar aqui também com poesias de Cecília, tiradas de sua Antologia Poética de 1963 e recitadas em um dueto poético... Ele começou e eu retribuir, depois nos despedimos; voltamos a regar a outra manhã com poesias e depois de despertado o interesse já podíamos misturar os artistas.

Eco

Alta noite, o pobre animal aparece no morro, em silêncio.
O capim se inclina entre os errantes vaga-lumes;
pequenas asas de perfume saem de coisas invisíveis:
no chão, branco de lua, ele prega e desprega as patas, com sombra.

Prega, desprega, pára.
Deve ser água, o que brilha como estrela, na terra plácida.
Serão jóia perdidas, que a lua apanha em sua mão?
Ah!... não é isso...

E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal
[sozinho.
Em cima, vai ficando o céu. Tão grande. Claro. Liso.

Ao longe, desponta o mar, depois das areias espessas.
As casas fechadas esfriam, esfriam as folhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos: ao lado um do outro, mas
[estranhos.
E ele pára, e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém...

Alta noite, diante do oceano, senta-se o animal, em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em tênue espuma.
Não é isso! Não é isso"
Não é a água perdida, a lua andante, a areia exposta...
E o animal se levanta e ergue a cabeça, e late... late...

E o eco responde.

Sua orelha estremece. Seu coração se derrama na noite.
Ah! para aquele lado apressa o passo, em busca do eco.


Ar livre

A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam-se leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.

A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

Palavras de Sam

Estava seco, como uma caneta que escreveu demais. E vagava e vagava, a rir, encontrando e desencontrando, com companhias inigualáveis e fantásticas, mulheres de atitude com AC/DC no sangue e álcool... Muitas mulheres com muitas pílulas. Com amigos de fraco caráter e muita honra. Estava perdido. Um poeta melancólico e um boêmio dividindo o mesmo corpo.
Estava na hora de encontrar uma âncora, algo p
ara infantilizá-lo e fazer brotar seu romantismo fajuto, estava farto de coisas falsas: falsas alegrias e falsas tristezas. Cheio de apetite por bebida e beijos doces. Era um leão sem savana, uma águia voando baixo num céu de jade. Faminto por corpos jovens e X-Duplos de esquina.
Não infeliz, mas não feliz ainda assim. Agradecido e satisfeito pelo que tinha e morrendo em si mesmo pelo que não tinha. Admirador de vestidos de verão, sorrisos verdadeiros e olhos curiosos. Escritor de palavras sem sentido e textos cheios de significado. Bêbado de felicidade e cerveja numa madrugada de sexta, esperando tudo de melhor da vida...
Fanaticamente querendo despejar criatividade sobre a borda alta de sua alma. É complicado, sim, sem dúvida é. Mas sou eu.

Wellington Wanderley Barros Junior

Mais um texto do Sam que eu adoro.

Apelo

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Apelo, Dalton Trevisan

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Estamos com fome de amor

O que temos visto por ai ???
Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes.

Com suas danças e poses em closes ginecológicos, corpos esculpidos por cirurgias plásticas, como se fossem ao supermercado e pedissem o corte como se quer.... mas??? 

Chegam sozinhas e saem sozinhas...
Empresários, advogados, engenheiros, analistas, e outros mais que estudaram, estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos...
Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dancer", incrível.

E não é só sexo não!

Se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida?
Sexo se encontra nos classificados, nas esquinas, em qualquer lugar, mas apenas sexo!
Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho, sem necessariamente, ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico na cama .... sexo de academia . . .

Fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçadinhos, sem se preocuparem com as posições cabalísticas...
Sabe essas coisas simples, que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.
Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção...
Tornamo-nos máquinas, e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós...
Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada nos sites de relacionamentos "ORKUT", "PAR-PERFEITO" e tantos outros, veja o número de comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!", "Eu sou pra casar!" até a desesperançada "Nasci pra viver sozinho!"
Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários, em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis, se olharmos as fotos de antigamente, pode ter certeza de que não são as mesmas pessoas, mulheres lindas se plastificando, se mutilando em nome da tal "beleza"...

Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento, e percebemos a cada dia mulheres e homens com cara de bonecas, sem rugas, sorriso preso e cada vez mais sozinhos...
Sei que estou parecendo o solteirão infeliz, mas pelo contrário...
Pra chegar a escrever essas bobagens?? (mais que verdadeiras) é preciso ter a coragem de encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa...
Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia isso é julgado como feio, démodê, brega, famílias preconceituosas...

Alô gente!!! Felicidade, amor, todas essas emoções fazem-nos parecer ridículos, abobalhados...

Mas e daí? Seja ridículo, mas seja feliz e não seja frustrado...
"Pague mico", saia gritando e falando o que sente, demonstre amor...
Você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais...

Perceba aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, ou talvez a pessoa que nada tem haver com o que imaginou mas que pode ser a mulher da sua vida...
E, quem sabe ali estivesse a oportunidade de um sorriso a dois...
Quem disse que ser adulto é ser ranzinza ? 

Um ditado tibetano diz: "Se um problema é grande demais, não pense nele... E, se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele?"
Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo, assistir desenho animado, rir de bobagens e ou ser um profissional de sucesso, que adora rir de si mesmo por ser estabanado...
O que realmente, não dá é para continuarmos achando que viver é out... ou in...
Que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo, que temos que querer a nossa mulher 24 horas, maquiada, e que ela tenha que ter o corpo das frutas tão em moda, na TV, e também na playboy e nos banheiros, eu duvido que nós homens queiramos uma mulher assim para viver ao nosso lado, para ser a mãe dos nossos filhos, gostamos sim de olhar, e imaginar a gostosa, mas é só isso, as mulheres inteligentes entendem e compreendem isso.

Queira do seu lado a mulher inteligente: "Vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois, ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo, tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida"... 

Porque ter medo de dizer isso, porque ter medo de dizer: "amo você", "fica comigo", então não se importe com a opinião dos outros, seja feliz!

Antes ser idiota para as pessoas que infeliz para si mesmo!

Estamos com fome de amor, Arnaldo Jabor

Para ler, divulgar e . . . praticar.
Extraído do blog "Devaneios".

O PEIXE

O Peixe saiu da água para comer a casca do coco. O Peixe era bem grande, o Peixe era malvado e comeu a planta; primeiro ele lambeu e depois comeu. Ai veio um monte de peixes pequenos que era o pai e a mãe do Peixe Grande, o filho
chupeta, o peixe tubarão e o outro filho tubarão. Ai veio o mosquito pequeno e a formiga voadora. Os outros peixes subiram no Peixe Grande e subiu no cavalo vermelho e no branco e no tubarão de parque, um cavalo com carroça e outro sem carroça. E foram para o parque e tinha uma praia misturada com piscina e um escorrego de balançar e cai na água e tinha um avião vermelho, azul, verde, cor de laranja e branco.

O mosquito foi para água primeiro e depois a formiga voadora, eles voaram da água para o céu, e tinha uma lua amarela, eles foram primeiro para a lua e tinha uma porta na lua nos dois lados e eles entraram na lua.

Ai o Peixe (pequeno) voo com o cavalo, o cavalo foi para a lua com o peixe e pegou os peixes num cavalo branco, preto, marrom e vermelho. E eles voaram. Os peixes cairam. O Peixe Grande saiu voando com o cavalo. Ai o Peixe acordou.

Juninho, 2 anos. Janeiro de 1998.

[ Primeira história do Sam, ditada por ele e datilografada (DATILOGRAFADA) pelo nosso pai.]


A genialidade e o talento para a escrita, vem desde cedo!
Esse texto sempre me faz rir. Adoro ele.

Sonetos de Amor

"Senhora minha muito amada, grande padecimento tive ao escrever-te estes malchamados sonetos e bastante me doeram e custaram mas a alegria de oferecê-los a ti é maior que uma campina. Ao propô-lo bem sabia que ao costado de cada um, por afeição eletiva e elegância, os poetas de todo tempo alinharam rimas que soaram como prataria cristal ou canhonaço. Eu, com muita humildade, fiz estes sonetos de madeira, dei-lhes o som desta opaca e pura substância e assim devem alcançar teus ouvidos. Tu e eu caminhando por bosques e areias, por lagos perdidos, por cinzentas latitudes recolhemos fragmentos de pau duro, de lenhos submetidos ao vaivém da água e da intempérie. De tais suavíssimos vestígios construí com machado, faca, canivete estes madeirames de amor e edifiquei pequenas casas de quatorze tábuas para que nelas vivam teus olhos que adoro e canto. Assim estabelecidas minhas razões de amor te entrego esta centúria: sonetos de madeira que só se levantaram porque lhes deste a vida." Outubro de 1959

Manhã
"Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.

Estou faminto de teu sorriso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.

Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas

e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como uma puma solidão de Quitratúe."
(Soneto XI, página 17)

Tarde
"Ai de mim, ai de nós, bem-amada,
só quisemos apenas amor, amar-nos,
e entre tantas dores se dispôs
somente a nós dois ser malferidos.

Quisemos o tu e o eu para nós,
o tu do beijo, o eu do pão secreto,
e assim era tudo, eternamente simples,
até que o ódio entrou pela janela.

Odeiam os que não amaram nosso amor,
nem outro nenhum amor, desventurados
como as cadeiras de um salão perdido,

até que em cinza se enredaram
e o rosto ameaçante que tiveram
se apagou no crepúsculo apagado."
(Soneto LXII, página 73)

Noite
"Amor meu, ao fechar esta porta noturna
te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
estende-te em meu sangue como num amplo rio.

Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
saúde, oh sombra, intermitente companheira!

Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
somos o matrimônio da noite no sangue.

Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é teu coração o que reparte
em meu peito os dons da aurora."
(Soneto LXXXII, página 96)

Sortuda era Matilde, à quem foi dedicado os mais belos sonetos de amor do poeta Neruda (:
E se eu for alvo de apenas um certo olhar deslumbrado a minha vida toda, homenageada por apenas um certo apaixonado durante toda a vida, serei então ainda mais sortuda que ela e - como acontece hoje - terei vontade de admirar somente aquele homem magnificamente exato. Cuja beleza ofusca até aquelas outras lindezas da natureza(que tanto me fascinam), cujo jeito sensualmente galante me atrai o olhar mais que qualquer outra formosura desta Terra. Esse certo alguém me traz tantas palavras que é mais sensato parar, ou se não estarei falando dele e não das poesias românticas que me repuxam um sorriso e fazem aparecer um brilhosinho nos olhos.

É a arte de poetizar: tudo aquilo que conhecemos - ou mesmo aqueles conhecimentos particulares - escrito com palavras e expressões de tão lindas fazem o que já era bonito parecer ainda melhor.
Deixo aqui, apenas três sonetos dentre os cem deleitantes sonetos de madeira de Neruda!

Repostando

Luz viajante

O Farol correndo pelo céu, iluminando-o, é uma das mais singelas belezas que pode-se ver. Qualquer um que pare, nessa nossa cidadezinha, e tenha a curiosidade de erguer os olhos para cima para deleitar-se com o véu azul e seus furinhos-estrelas e a lindíssima lua (magnifica em todas as suas fases), terá também o prazer de ver o farol passeando pelo céu.
Entretanto creio que, assim como é difícil hoje em dia ver alguém estar à admirar o céu, é ainda mais raro alguém admirar a simples luz do farol.
Mas eu sempre fui assim. Desde pequena me admiro facilmente com a mais singelas preciosidades. E nessa vida cada pequeno detalhe é precioso, eu acredito; cada repuxar que vai formando um sorriso bobo por um pensamento solto lhe faz notar a importância de certas pessoas, certos momentos e certos tesouros. Tesouros não como os dos piratas, reis e dragões mas sim como as flores ou o firmamento de um azul profundo cheio de estrelas brilhantes, o arco-íris em meio aquelas nuvens que quando precipitam deixam a terra com cheirinho de chuva, o sorriso feliz da pessoa amada e todas essas coisinhas que podem parecer a maior besteira para todo mundo mas que ao menos para mim são acontecimentos fascinantes.
E é por ser para mim fascinante essas minucias que estou aqui, a escrever algumas palavras sobre minhas bobagens.
Acho deliciosa a sensação de olhar o céu... ficar observando as nuvens se movimentarem levemente na imensidão negra fazendo parecer que na verdade são os astros que estão caminhando de um lado para o outro. Enquanto as nuvens se movimentam devagarzinho pelo céu, aquele feixe de luz azul ilumina de um canto a outro; dias em que chove o feixe de luz azul ilumina a negritude que recobre o firmamento e após alguns instantes está iluminando também parte de algumas nuvens e no seu vaivém chega um momento que percorre apenas nuvens... e depois cai a chuva e molha a terra, esfria o ar e traz aquele aroma gostoso de terra molhada.
Fico imaginando aquela torre imensa com uma luz fortíssima que movimenta-se de um lado pra o outro, enquanto pinta o céu com sua tonalidade. As nuvens em meio a sua dança vagarosa faz lembrar o mar, quando está calmo e as ondas vem e "quebram", jogando pingos de água salgada no ar e fazendo aquela espuma branquinha; quando se agitam também remetem ao mar revolto, quando é ainda mais necessário a presença da luz viajante do farol para guiar os marinheiros à chegar em um lugar seguro - ao menos seguro da ira do mar.
Sempre achei deslumbrante a luz do farol correndo pelo céu, deixando rastros de luz azul pelo horizonte...
É só. Vim aqui para falar apenas de um farol e sua luz corredora. São apenas palavras descrevendo um fenômeno totalmente trivial que pode ser maravilhoso aos olhos daqueles que aprenderam a arte de ser feliz.

[...] "quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."
Cecília Meireles