Ele trouxe-me diversos poetas com diversas poesias mas a opinião do meu eu mais novo não mudava.
No dia que chegou com um livro da Primavera das Poesias - como me apresentou a fantástica Cecília Meireles - o meu ver dos versos mudaram completamente.
Então, todas as manhãs, sentávamos ao redor da nossa mesa de vidro, iluminada pelo sol delicado da manhã e liamos Cecília.
Cá estou para relembrar daquelas épocas pintadas de poemas e sol que também fazem lembrar as épocas douradas do NossoCaffeLatte, cuja postagem inaugural foi exatamente sobre poesias e Cecília, e o despertar do gosto pelos versos.
[...] "essa que por muito tempo me passou para trás, sempre me desinteressando no último momento, e minha ideia sobre ela é muito positiva, quando se lê a poesia simplesmente, ela não passa de palavras numa página, sem vida, sem emoção, sem nada, mas assim também seria se eu me pusesse a ler os grandes livros de romance sem me deixar levar pela história, imaginando o que eu vejo nas palavras.No entanto, quando a poesia é lida como deve ser, dando-lhe ritmo como uma música, seja rimada ou não, deixando que ela mostre toda sua sentimental exuberância, característica essa que eu não usaria no dia a dia, mas que é a melhor para definir a poesia, que acima de tudo impõe emoção, ela se torna tão divertida e fluente quanto os melhores romances, levando em conta, é claro, que a poesia é algo muito mais livre e estreito. Não se deve ler um livro de poesia como outro qualquer, mas manter uma linha, seja reta ou não, escolhendo os poemas sobre os quais o assunto interessa e deixando que o poema se expresse, sem dar uma conotação de um capítulo de um livro, mas de um livro dentro de outro.Quanto a Cecília Meireles, não posso recitar uma lista de características sobre ela, mas posso dizer que todos os poemas que li, gostei" [...]
Sam Cromwell para NossoCaffeLatte
Não vou escrever muito palavras minhas, só quero pintar aqui também com poesias de Cecília, tiradas de sua Antologia Poética de 1963 e recitadas em um dueto poético... Ele começou e eu retribuir, depois nos despedimos; voltamos a regar a outra manhã com poesias e depois de despertado o interesse já podíamos misturar os artistas.
Eco
Alta noite, o pobre animal aparece no morro, em silêncio.
O capim se inclina entre os errantes vaga-lumes;
pequenas asas de perfume saem de coisas invisíveis:
no chão, branco de lua, ele prega e desprega as patas, com sombra.
Prega, desprega, pára.
Deve ser água, o que brilha como estrela, na terra plácida.
Serão jóia perdidas, que a lua apanha em sua mão?
Ah!... não é isso...
E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal
[sozinho.
Em cima, vai ficando o céu. Tão grande. Claro. Liso.
Ao longe, desponta o mar, depois das areias espessas.
As casas fechadas esfriam, esfriam as folhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos: ao lado um do outro, mas
[estranhos.
E ele pára, e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém...
Alta noite, diante do oceano, senta-se o animal, em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em tênue espuma.
Não é isso! Não é isso"
Não é a água perdida, a lua andante, a areia exposta...
E o animal se levanta e ergue a cabeça, e late... late...
E o eco responde.
Sua orelha estremece. Seu coração se derrama na noite.
Ah! para aquele lado apressa o passo, em busca do eco.
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.
Leva o arco-íris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam-se leves alvoradas de neblina.
Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.
O capim se inclina entre os errantes vaga-lumes;
pequenas asas de perfume saem de coisas invisíveis:
no chão, branco de lua, ele prega e desprega as patas, com sombra.Prega, desprega, pára.
Deve ser água, o que brilha como estrela, na terra plácida.
Serão jóia perdidas, que a lua apanha em sua mão?
Ah!... não é isso...
E alta noite, pelo morro em silêncio, desce o pobre animal
[sozinho.
Em cima, vai ficando o céu. Tão grande. Claro. Liso.
Ao longe, desponta o mar, depois das areias espessas.
As casas fechadas esfriam, esfriam as folhas das árvores.
As pedras estão como muitos mortos: ao lado um do outro, mas
[estranhos.
E ele pára, e vira a cabeça. E mira com seus olhos de homem.
Não é nada disso, porém...
Alta noite, diante do oceano, senta-se o animal, em silêncio.
Balançam-se as ondas negras. As cores do farol se alternam.
Não existe horizonte. A água se acaba em tênue espuma.
Não é isso! Não é isso"
Não é a água perdida, a lua andante, a areia exposta...
E o animal se levanta e ergue a cabeça, e late... late...
E o eco responde.
Sua orelha estremece. Seu coração se derrama na noite.
Ah! para aquele lado apressa o passo, em busca do eco.
Ar livre
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.
Leva o arco-íris em cada fio de cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantespintam-se leves alvoradas de neblina.
Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.
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