Lia... Nem percebera quando os sinos começaram. Pela janela da cozinha se via o jardim esverdeado, as poucas flores contrastando contra o esmeralda escuro. Garoava, as gotas de chuva dançavam ao sabor do vento, beijando o vidro e descendo em corrégo até o chão.
Estava tão concentrada e profundamente absorvida pela história que se passava nas páginas do romance que o fato de não se ouvir mais nada, exceto o soar daqueles minúsculos sinos risonhos, passou despercebido. E então a garoa começou a passar pela janela, pois já não havia vidro... E o vento começou a soprar bem forte, pois não haviam mais paredes... Segurou a respiração, pois seu corpo parecia comprimido, a pele arrepiando até a nuca, como se passasse por um túnel comprido e, como Alice, estivesse ficando muito pequena e muito grande para a travessia se concluir. Sentia-se esticada como um iôiô arremessado, vibrante como a corda de um violão puxada com força.
De repente o céu branco estava lá em cima, sem telhado para escondê-lo. Ela nem ao menos percebeu-se sentada numa cadeira solitária num prado verdejante, sob uma garoa fina e um céu infinitamente recoberto de nuvens. Nem mesmo o pássaro vermelho-dourado que cantava e sobrevoava repetidas vezes lhe chamou a atenção. Áquila toda lhe chamou o nome, soprou-lhe os cabelos, tocou-lhe a pele, adentrou sua alma e suspirou, pois a menina não lhe deu atenção.
Enquanto o climáx terminava e ela lia o desfecho, o arrepio dispersou, e como não se movera, estava de volta à cozinha antes mesmo de levantar os olhos. Surpresa, exclamou:
- Ora essa! Estou toda molhada! Quem foi que abriu a janela?!
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