Bem assim era eu... os cabelos, ainda curtos, não tinham formado seus cachinhos que enrolavam-se como molas. Pequenina, ainda não havia aprendido nem como saborear direito as palavras, mas mesmo assim concentrava-me em decifrar o que se escondiam naqueles montes de letras...
Como toda criança deve pensar, eu imagino, ainda tinha a ideia de Alice; eu afirmo mesmo sem ter muitas recordações daquela magnífica época. Se não sabe da ideia de Alice, deixo-lhe um trecho, na verdade o primeiríssimo parágrafo, da confusa história de Carroll, este um dos poucos que souberam crescer sem deixar de sonhar, que é o rumo errado que tomam a maioria:"Alice estava começando a ficar muito cansada de estar sentada ao lado da irmã na ribanceira, e de não ter nada que fazer; espiara uma ou duas vezes o livro que estava lendo, mas não tinha figuras nem diálogos, 'e de que serve um livro', pensou Alice, 'sem figuras e nem dialógos?' " [...]
(Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll)
E era assim que, eu creio, pensava a pequena Aline. E então, para não contrariá-la e ainda visando passar-lhe o gosto pelas palavras, seu guia, seu pai e seu mentor entregavá-lhes seus melhores livros com as mais belas ilustrações. E veja agora como foi bem feito o trabalho dele: sua pequenina filha cresceu, e agora além de deliciar-se com cada palavra e olhar a beleza por trás de cada frase, escreve... escreve apenas pelo gosto que isso lhe dá, pela gostosa sensação de mais e mais ideias surgindo em sua mente, por saber que com isso pode estar conseguindo construir um novo palácio em seus vastos territórios.
E então, olhando como é grande a extensão dos territórios, como há mundos e mais mundos à serem descobertos, mais territórios à serem conquistado, tantos castelos à serem construídos na mente de cada pessoa, pergunto-me: Como pode haver, e não são poucas, pessoas que teimam em prender-se à realidade e somente a ela? Como pode haver tantas pessoas que não sabem e não tem interesse em saber como é bom viajar sem sair do lugar, sem ao menos notar quando mudou de um mundo para o outro? Como há tantas pessoas que não tem interesse em vivenciar algo que sabem que não poderão provar em sua própria vida, em tentar solucionar um problema de um personagem com o qual se identificou, em odiar aquele que faz mal à pessoa amada por outro e que através das palavras conecta-se à você, fazendo com que ame essa pessoa também?
E ainda tantas e tantas sensações existem em uma história que apenas quem consegue viajar através dela, só quem vivencia aquilo que está por trás das palavras, prova de tais e tão deliciosas sensações.
Duvido que sendo de outra família, tendo outros pais, saberia como provar das sensações impregnadas em cada palavra. Então agradeço por ser uma das exceções entre a maioria das pessoas, pessoas estas que ainda não aprenderam como é bom ler.
"É claro que eu não sabia ler, mas por algum motivo isso me deixava ainda mais maravilhada, todos os milhares - acho que milhões - de linhas codificadas com impressão indecifrável. Muitos livros eram ilustrados, com xilogravuras e gravuras coloridas, citações frustrantes logo abaixo delas, cada uma delas mostrando a miserável impotência do tracejar dos dedos."
(A menina que não sabia ler, John Harding)

Absolutamente perfeito. Ficou muito lindo esse post, e eu concordo com cada palavra. Amo-te menina.
ResponderExcluirMuito obrigada.
ResponderExcluirEu também te amo, demais.